A pergunta de minha filha

 Tenho uma filha de 3 anos. Isso em pleno século XXI talvez seja bom, talvez seja ruim. É bom porque tenha dentro da minha vida um ser cheio das coisas mais puras que a criação nos presenteou – e assim posso rever a vida desde o começo e a partir da lembrança daquilo que todos nos um dia fomos – encontrar esperança para caminhar um pouco mais. É ruim, porque quase sempre não sei o que dizer a ela sobre as coisas da vida em relação as coisas do mundo, sobre como lutar e como de fato é a luta, sobre amor de livro e o amor da vida.

 De tudo no entanto, há algo que muito me angustia. Pode parecer para a grande maioria das pessoas que não seja assim um assunto tão importante, mas com certeza é o que hoje mais me tira o sono. Sei, que logo ela irá começar querer discutir comigo o que irá ser quando crescer – e eu não sei ao certo como ajudá-la.

 Em outros tempos poderia animá-la com qualquer carreira. No fundo de cada poço que transformamos as brilhantes profissões há toda uma filosofia e beleza, mas não seria justo falar da parte onde o sol da realidade não bate mais e deixá-la um dia acordar assustada em meio a  uma realidade totalmente distinta. Poderia animá-la a seguir a carreira das leis – este universo lindo de direitos e deveres – a essência de sociedades equilibradas e felizes. Mas como dar bons exemplos ? De onde tirar forças e razões para explicar a ela que toda esta beleza perde a cada dia que passa sua cor diante do valor do dinheiro e nada mais ? Poderia então dizer que buscasse os caminhos de amenizar e curar a dor dos outros humanos – e talvez assim expô-la ao desencanto  precoce das situações que se pode mais entender mais cedo pela vivência. Restaria-me talvez dizer a ela que construir casas e coisas tem a nobreza de ampliar a obra de Deus, mas me sentiria muito mal tendo entre os meus alguém que aprendesse apenas a ter títulos e jamais responsabilidades, a sempre ocultar-se quando algo desse errado e assim – embora pudesse ser ate uma profissional reconhecida e brilhante – estar ao mesmo tem entre aqueles que jamais alcançaram o mesmo brilho como ser humano.

 Não sei o que dizer a minha filha – poderia até simplesmente ser a dona de casa mais feliz do mundo – se houvesse ainda no mundo família como vemos nos livros e filmes. Restaria – o que pode parecer para alguns mais seguro – mostrar a vida religiosa – mas não seria justo nem com ela, nem comigo.

 Enquanto o tempo passa e não tenho respostas tomei uma decisão: Direi a minha filha que terá todo meu apoio para ser gente – isso mesmo – e assim – se conseguirmos este intento, faça ela o que fizer, será feliz.

 Tomará que esteja certo.

 Cosmo Palasio de Moraes Jr.

 




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