Carta Ao Menino Lá de Longe

Caro Menino:

          Nós, as pessoas mais velhas, geralmente tentamos arrumar palavras difíceis não porque sejamos cultos, mas porque na verdade as palavras mais simples logo de cara deixariam evidentes que não sabemos bem o que dizer e que a bem de verdade nem mesmo acreditamos muito na veracidade do que falamos.

          Espero que esteja bem. Na verdade também trata-se de uma esperança meio que só apenas literária, visto que porque lá fora tem um mundo querendo entrar em guerra, ai no seu bairro tem gente sem emprego e mesmo você com certeza não consegue ver bem se vai haver futuro. Cairia bem lhe dizer que a esperança é a última que morre, mas vou poupá-lo deste lugar comum.

          Lamento pelos momentos que vive. Triste imaginar que mesmo a vida já sendo uma droga alguém ainda tenha coragem de procurar outras drogas. Não sei dar conselhos – talvez porque não goste de ouvi-los – mas sei tudo sobre a dureza da vida – é isso não aprendi com falas de pai e mãe – até porque eles me contaram que a vida era doce – e nem mesmo nos livros – porque como vocês jovens melhor sabem do que eu – matemática, física e inglês – só fizeram de mim apenas uma mão de obra melhor.

          Dizer a você que o que faz é errado seria melancolicamente hipócrita. O que há de certo neste mundo ? Mas que tal falarmos de liberdade – de coisas que ainda de alguma forma tem algum cheiro e cor ? Que tal falarmos de coerência – não com os outros – mas com nós mesmos – que tal imaginarmos que se continuarmos vivos – mesmo que por pirraça – podemos fazer algo disso aqui um pouco diferente e menos sacana.

          Sou uma destas pessoas que fez muitas besteiras na vida – amém. E se não fossem as besteiras – já teria pulado de algum prédio alto – é feito a maior delas. Mas jamais me deixei levar – porque detesto depender de qualquer outra coisa que não seja o prazer. Não consigo imaginar que minha vida entre pelo nariz ou que venha de baforadas da velha erva que os índios sem faculdade usam melhor do que a gente. Não me vejo dependendo, definhando sem fazer qualquer coisa. Não me vejo sem o dia de amanhã onde posso encontrar algo de novo – e mesmo que seja algo a ser jogado fora no final do dia – resta-me sempre outro amanhã.

          Sabe sujeito, gosto de escandalizar, não de ser comum, não de me sentir entregue. Detesto que me ponham o dedo no nariz e assim gosto de ser dono de mim e ser louco de verdade. Gosto de rir do ridículo da fragilidade desta doença social e para isso preciso estar consciente porque aprendi ao longo dos anos que o estar consciente só me faria apenas mais um.

          Gosto de ser do contra – e assim sendo – não me cairia bem um serzinho qualquer dominar minhas noites e depois talvez os dias me vendendo coisas que me fariam submisso.

          Eu acho – e digo acho porque se alguém lhe dizer que sabe creia, está mentindo, que a vida vale pelo direito de ser o que queremos ser – e não para ser dependendo.

          Eu sinto – que nas entrelinhas da vida há vida – e que para vê-las é preciso estar longe de tudo que é comum, antigo e banal e que ás vezes em dadas fases da vida nos parece ser tudo.

          Eu creio – que vale a pena bater na cara da vida como ela bate na nossa, mas que isso só tem sentido quando nos mantemos lúcidos – pois ao contrário – são nossos fantasmas e não nós mesmos.

          Por isso – não por convicções moralmente idiotas ou coisas deste gênero – não me permito que em minha vida entre algo que assuma o controle. Ah ! estranhamente esqueci de dizer que quero estar lúcido quando o hospício pegar fogo.

          De mim para você, todo meu respeito. Você é gente como eu, tem mazelas como eu e as confessa – e eu – de tão podre me arrasto.

          De mim para você – apenas esta conversa de iguais e nada mais. Se seguir o caminho de hoje, terá meu respeito no seu momento final que com certeza virá antes do meu. Se no entanto, me der o prazer da companhia, faremos coisas que irão surpreender estas pessoas que se acham nossas donas – e ai sim – teremos sido loucos – não por alguns minutos – mas pela vida toda.

          Deixo aqui um abraço, deste adulto que também às vezes tem medo. Deixo também meu desejo de que pense em você, seja egoísta e enfrente esta lamentável vida. De tudo o final, terá o direito de sarcasticamente rir de coisas que pensando bem não merecem mais do que risos.

          Se ainda pode me ler e entender – sabe do que falo.

Espero você em uma esquina da vida.

Abraços,
 

 

Cosmo Palasio de Moraes Jr.

 




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