E Agora sociedade ?

O final do ano de 2002 foi marcado por uma série de crimes de pais contra filhos. De certa forma houve um grande burburinho de gente que como sempre faz já esqueceu das suas causas de temporada e assim a vida seguiu e tudo tende ao grande e coletivo esquecimento. Na ocasião escrevi algo sobre isso e dizia que precisamos começar a entender não apenas as conseqüências – mas com certeza as causas destes episódios terríveis. O grande problema e que estamos em meio a uma sociedade que não se aprende, que vive de oba oba, que age mediante a indignação de momento e nada mais do que isso.

O começo de 2003 trás um quadro diferente. Em menos de uma semana vimos filhos sendo agredidos, abandonados e mortos pelos pais. Interessante que não apareceu ninguém da porta das delegacias. Estranho este número – onde a violência parece indignar apenas dentro de uma certa hierarquia social. Mais estranha é a falta de protestos – como se pai agredir e matar filho fosse algo assim meio implícito e legal. Sei lá onde tem justiça nisso, menos ainda sei o quanto isso contribui para que situações como as ocorridas em 2002 deixem de ocorrer – se é que é isso que de fato queremos.

Ate quando vamos insistir em chamar de família os agrupamentos sociais que hoje vemos ? Até quando vamos fazer de contas que as regras de 1920 valem no século XXI e que a dominação, o medo e a prepotência sigam como regra de convívio. Deve ser bom e confortável imaginar que tudo está bem – só é problema quando algo foge desta rotina. Deve ser interessante seguir vivendo num mundo onde ser mais velho quer dizer poder – embora muitos de nossos mais velhos sejam verdadeiros dementes e vivam gritando que se faça o que jamais fizeram.

Se pode existir família sem equilíbrio e justiça então estamos no caminho certo. Mas como fazer isso em um mundo onde ainda se mistura desejo e sentimento, onde se obriga que as pessoas sonhem o que nem mesmo tem dentro de si – onde temos que ser o que não nem de longe desejamos.

Bom, ou a sociedade acorda – ou continuaremos assim – entre uma indignação ou outra – que talvez não seja mais do que a expressão do medo de ser o próximo da fila.

Cosmo Palasio de Moraes Jr.

 




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