Na rua onde morava

          Poucas vezes temos tempo. Estranhamente é o tempo que nos tem nas mãos, dita a vida, enche-a de hiatos e faz com que nos sintamos algo assim como passageiros da própria vida. Não temos tempo para outra coisa que não seja controlar o tempo, porque fora destes instantes de quase lucidez, estamos embrenhados em cumprir, fazer acontecer, enfim, de sermos alguma engrenagem qualquer em qualquer coisa que seja.

          Mas o homem, este ser tão social, vez por outra tem recaídas de coisa selvagem. Por conta disso fica meio rebelde - coisa de momento - e quando rebelde consegue olhar-se e tenta assim ver alguma coisa diferente do que o panorama obrigatório que conduz a sobrevivência e nada mais.

         Foi assim que me peguei, dia destes, olhando a rua onde morava. Parece estranho, mas embora já tivesse muitas vezes voltado ali, só agora me dei conta daquela coisa preta do asfalto jogada pelo chão. Outrora, naquele mesmo lugar, pelas frestas do calçamento, alguma coisa de verde insistia. Isso se perdeu e eu nem me toquei.
Pela rua onde morava, em tempos que vão distantes, havia quase que formalmente definido no piso, duas traves de gol, o lugar onde se jogava taco e com certeza, muito mais nítida, uma quadra de amarelinha..

          E agora ? Agora nem mesmo posso parar e observar, porque os carros passam frenéticamente e as pessoas que vão dentro deles parecem não ver as pessoas que ficam do lado de fora. Na rua do passado, carro era uma chimbica abandonada, lugar certo para esconder nos momentos de pique-esconde e pega-pega e mais tarde,
quando começávamos a sentir as necessidades do amor, lugar para namorar, sentir o cheiro da pele alheia e aventurar fazer coisas que hoje não são mais do que banais e triviais.

          Não há mais o cortiço - coisa assim de programa do Chaves ao vivo e a cores, com direito a radiopatrulha - num tempo onde todas eram um fusca e a visão do desajuste social, que na época não parecia mais do que coisa engraçada a ser comentada. Não tem mais o Bar do Gustão, ponto final de uma busca por doces. Não tem mais espaço para o circo e para os parques, o primeiro com seus palhaços de humor simples, o segundo com dengues que vez por outra soltavam suas cadeiras e era um Deus nos acuda.

          É triste olhar para a rua, para o progresso que tirou as pessoas e a suas cadeiras das calçadas e as trancou dentro das casas.

      Dos amigos ficaram as pegadas, cobertas pelo asfalto. Dos parentes, ficou a saudade da família maior antes que a morte viesse. Dos namoros, a certeza de que o amor também está asfaltado. Na verdade o que restou foi um vão morto e sem vida, que permite a passagem entre duas calçadas e suas casas.
          É. Nem mesmo as ruas foram perdoadas
 

 

Cosmo Palasio de Moraes Jr.

 




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