O ROSTO DAQUELE HOMEM

          Que pena que vivemos um tempo onde cada vez menos as coisas marcam. Prestem atenção e verão que estamos vivendo uma momento onde os homens não impressionam mais os homens. Fiquem atentos e terão certeza de que quando, hoje, precisamos de ídolos acabamos indo buscá-los no passado.

          Hoje – um rosto marcou minha vida. Vendo TV – coisa simples – vi um senhor de uma pequena cidade do interior do Estado de São Paulo – triste e mesmo chorando. Aquele homem – gente da roça – ali olhando assim meio que mais sem esperança do que a gente comum desta terra. Olhando pela TV aquele homem tive nojo de todo a gente que tira a vida das pessoas – e não me refiro aqui a violência na sua forma mais comum e hoje até banal em nossas cidades – mas digo com certeza da violência sutil do poder e da falta de justiça – da violência que às vezes não deixa marcas no corpo mas entorpece a alma e tira dela toda forma de esperança.

          Poderia ter passado a minha vida sem ouvir falar em Divinolândia. Neste Brasil imenso uma cidade com 11 mil habitantes só chama atenção quando por lá aparecem lobisomens. Mas hoje fiquei sabendo que Divinolândia existe – infelizmente porque uma certa cooperativa desta cidade sumiu com o trabalho e produção de café da sua gente simples – de repente – anos de trabalho – e trabalho na roça não é brincadeira – desapareceram e como se café fosse invisível ninguém sabe para onde foi e pior ainda – ninguém apareceu com o dinheiro de toda aquela gente humilde.

          Por lá tem gente com fome, gente desesperada – gente que trabalhou e não recebeu. E nós aqui gente comum, quando atrasamos um prestação da batedeira – luxo que expomos em nossa cozinha – logo surgem aquelas cartinhas malcriadas e gente dizendo coisas de toda espécie. Mas lá em Divinolândia parece-nos que não é bem assim.

          Olha, se queremos um País novo é bom que desde logo nossas cadeias comecem abrigar um novo tipo de gente – e que assim pelas ruas – o povo possa ter boa fé e ao menos conseguir trabalhar para viver.

         O olhar daquele homem está na minha frente. Sinto-me pequeno e sem graça, Sinto vergonha. Melhor dormir, pode ser que amanhã o Brasil amanheça melhor.

Cosmo Palasio de Moraes Jr.

 




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