Pode parecer que não – bem provável que você não acredite – mas eu sei que dia é amanhã – como também sei que o tempo pode apagar coisas que aprendemos mas não tem o mesmo poder com o que sentimos.

Nem por isso irei acordar cedo, nem de longe pensei em mandar lavar o carro. Pensando bem é preciso que diga que não sei mais de cor números de telefones de floriculturas e também que não acho mais graça em comprar bichos de pelúcias. Não irei também cantar – na verdade desaprendi todas as músicas – mesmo aquelas que cantei nos momentos felizes – hoje tão distantes – e que com os olhos fechados me fazia sentir nas serenatas.

Sei sim que dia é amanhã – e gostaria de muito mais do que saber – ter coragem para encher a sala de nossa casa de flores. Gostaria de ter um sentir jovem o bastante para enfiar-me entre as panelas e o fogão e fazer algo para lhe dar de comer na boca e que depois disso a sobremesa fosse repleta de beijos – que tento lembrar que gosto tinham – mas nem na lembrança os sei mais.

Verdade que se os dias de nossas vidas fossem vivos – amanhã cairia bem um motelzinho. Nem eu, nem você temos mais o mesmo corpo – mas não foi ai que nos perdemos. Talvez fosse bom um brinde – se lembrasse ainda o que significa cumplicidade. De tudo – houvesse ainda ao menos carinho – poderíamos tão somente ver Tv juntos de mãos dadas – mas há muito tempo minhas mãos e as suas não se conhecem mais.

Eu nem sei porque lembro ainda que dia é amanhã. Não existem mais as pessoas que um dia se conheceram, se apaixonaram e se deram. Morreram ou ficaram no tempo – melhor não saber ao certo – talvez assim nos reste a esperança de que um dia destes um de nós entre por aquela porta e nos encontremos mais uma vez só que seja.

Como é triste ter saudade de quem de fato não se foi. Doloroso é supor que se não tivéssemos preferido a comodidade talvez fosse possível lembrar e sorrir. Não há o que dizer para quem morre e nos mata ao nosso lado. As palavras não chegam até a garganta – este homem que muitas vezes viajava 400 quilômetros para lhe ver – hoje não anda quatro metros para ao menos lhe falar,

Chega um tempo que apenas temos memórias e que comemorá-las é depor contra a própria vida. Chega um tempo onde a mesma janela de onde se via paisagem e vida não passa de um vão na parede de tudo que nos cerceia.

Desculpe se farei de conta que não lembro. Hoje eu sou assim – não choro mais de saudade – choro apenas de medo.

Cosmo Palasio de Moraes Jr.

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