Entre o pai que não tive
e o pai que não sou,
há uma avenida que separa
o perder do ter perdido.

Não sei bem o que move.
Talvez seja medo,
talvez seja comodidade,
talvez seja a convicção
de não ter de fato o que dar.

Entre o pai que se foi
e o pai que jamais fui,
há uma relação de intima similaridade.

Às vezes penso:
Meu coração é repleto!
Por todo tempo tenho certeza:
ele tem muros!
Muros com imensa capacidade
de nada deixar sair.
E ao mesmo tempo,
nada até ele consegue chegar.

Às vezes pego-me mudo, mesmo
podendo e sabendo falar.
No entanto não me basta saber falar
se para o assunto não encontro palavras

Às vezes, sinto-me cego,
mesmo sabendo de onde vem a luz,
porque não me basta ver, quando
sobre certos assuntos,
tão pouco consigo enxergar.

Entre o passado e o presente
há não mais do que uma linha, linha forte,
que me assusta pela suposta fragilidade,
que me prende pela força sutil.

Sendo livre, encontro-me preso
em dois tempos.
Em dois distintos e distantes papéis.
Tendo a quem dar,
não sei mais onde são os caminhos.

Por isso, sempre peço que
nada me perguntem.
Por isso me calo diante daquilo
que não entendo.
Por isso peço que me entendam,
que me desculpem

Pois embora esta pobreza me doa,
jamais soube como fazer
para encher as mãos.


Cosmo Palasio de Moraes Junior

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