Andando
pelas ruas da cidade acabei lembrando que é Natal.
Não gostaria que fosse assim – na verdade queria
ser ainda aquele menino que via na luzes e nas cores a
possibilidade de um mundo novo – mesmo que fosse por
milagre.
Voltei
para casa triste. Ninguém deve ser tão velho a ponto
de não crer mais em Papai Noel – e eu sou. Voltei
para casa a procura de motivos para ser Natal e
disposto até mesmo a inventa-los para que quem sabe
pelo menos um dia que fosse neste mais um ano que se
foi – acreditar.
Viajei
a distante infância. Fiz questão de pular todos os
muitos anos que me distanciam do ser feliz e passar
direto até o tempo onde tinha todas as possibilidades
– eram apenas possibilidades – mas tinha.
Um
riso entre o amargo e o triste veio aos meus lábios.
A ligeira sensação de estar de volta ao tempo onde
havia alguém em minha volta e não gastava a maior
parte do meu tempo tendo medo. De repente lembrei que
um dia havia sido feliz e que rir não era apenas o
ato mecânico de expressar contentamento diante de
alguma coisa mínima que alguém deixou escapar e caiu
sobre a rua onde passamos.
Eu
era muito menor e era muito mais feliz. Sabia muito
menos coisas e tinha utilidade para todas elas. Tinha
menos razão e muito mais emoção e não precisava
saber de onde e porque vem os carinhos.
Por
alguns minutos estive dentro do mundo mágico onde
quase todos começamos e forte foi a vontade de fechar
a porta que me levava ao futuro – que naquele tempo
era uma espaço aberto na parede na imaginação –
que mal sabia levaria ao buraco da mesmice.
Sentindo-me
tão bem arrisquei então a escrever uma carta ao
Papai Noel.
Querido
Papai Noel
A
primeira coisa que quero dizer e que não acredito –
não só em Papai Noel – mas em mais nada. Por isso
mesmo – se fosse apenas escrever esta carta a partir
dos meus cálculos de adulto – deveria pedir que me
enviasse um pouco de crença e fé – mas são tantas
coisas que preciso – que melhor mesmo é escrever a
carta inteira e ao final – decidir o que é melhor
pedir.
Aqui
em casa não tem chaminé – aliás aqui em casa não
tem uma porção de coisas que tinha na casa da minha
infância. Não sei mais o que é família, não sei
mais o que é festa, os mais velhos todos já se
foram. A única coisa que talvez continue a mesma –
seja o hábito de chorar – embora antigamente
chorasse por coisas diferentes como medo de escuro –
hoje pela certeza do escuro das coisas que não
consigo ver mais.
Então
talvez fosse bom que eu pedisse coragem – afinal de
contas não deve ser bom chorar a vida inteira – mas
creia que se tirar de mim o choro vai embora o pouco
que resta de humano nesta coração duro e sem porque.
Então deixa o choro aqui.
Uma
coisa importante a ser dita – talvez para mim e não
para o senhor – e que hoje em dia não preciso
ganhar quase nada até porque posso comprar quase tudo
que quero. Mas ganhar é tão bom, as coisas chegam
para a gente com cheirinho de quem deu e por detrás
do objeto vem o carinho e por detrás do carinho pode
até ter amor. Mas do que adianta tudo isso Papai Noel
– eu não sei mais o que é amor – mal sei o que
é trocar – e na verdade nem mesmo trocar me soa bem
pois aprendi que temos que ganhar, mais e sempre mais.
Então seria bom Papai Noel, que me enviasse de novo o
sentido do amar – mas acho que meu coração está
meio velho e assim não daria certo.
Pensando
bem – Papai Noel – talvez fosse bom ter então uma
família bem grande – e assim ter uma daquelas
festas que vejo a distância e pelas janelas – gente
rindo, se abraçando – que olhando assim de longe
até parece que se amam. Mas Papai Noel – me
desculpa – eu sei que o mundo não é bem assim –
e entre a ilusão e a utopia – há um espaço
perigoso onde moram as coisas que fazem o mundo ser
como é. Melhor então deixar isso de lado – e ficar
com minha tristeza verdadeira em detrimento da
felicidade e alegria de fotografia.
Está
difícil pedir alguma coisa. Talvez porque o mundo é
a vida sejam de fato isso que vejo e sinto. Poderia
pedir para voar – e quem sabe andando por cima do
mundo encontrar um lugar de paz onde fosse possível
esperar o Deus nascer. Mas em cada canto do mundo tem
um conflito – alguns deles que todos podem ver –
outros que se dão de maneira tão sutil que mal
podemos perceber.
Por
fim – Papai Noel – acho que não quero pedir nada
– apenas que lei minha carta para que esta imensa
sensação de solidão por alguns instantes seja
trocada pela sensação de que alguém entende que eu
sei que Jesus vai nascer e que por isso mesmo não
posso fechar os olhos para as coisas como são, porque
eu também sei que depois ele vai morrer – não para
que sejamos hipócritas, não para que façamos de
conta que o mundo vai bem – mas para que tenhamos
coragem de mesmo as vezes sem motivo – lutarmos para
que tudo seja diferente.
Agora
já sei qual é o presente Papai Noel – consciência
– e sei que ela estava dentro de mim aguardando ser
desembrulhado.
Não
sou um homem triste – apenas sou alguém distante da
euforia sem porque dentro deste mundo desigual.
Feliz
Natal – Papai Noel
(Cosmo
Palasio de Moraes Jr.)
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